Loraine acordou de mau humor. Ela não tinha idéia do porque, mas não estava querendo fazer nada. Na verdade nem queria acordar tão cedo. Tá bom, 10 horas não é tão cedo assim, mas hoje para ela parecia madrugada.
O dia tinha cara de preguiça. Vento gelado entrava pela janela que abrira ao acordar. Já havia se trocado, escovado os dentes. Era hora de sair. Há muito esperava por este dia, mas hoje não estava tão afim.
Saiu de casa, logo em frente uma padoca. Entrou, pão na chapa com manteiga, um pingado e um chiclete na hora de sair. Estava pronta, saiu caminhando e lembrando:
Os dias que passara vendo desenhos, brincado com bonecas e comento biscoitos da vovó. O dia que pegou virose e emagreceu um monte, mas ficou no colo dos pais a noite toda. O dia que o primeiro cachorro morreu, o coração parou do nada. Única morte na qual chorou bastante. Não pelo fato de o Buck ser mais importante que todos que vieram a morrer mais tarde, apenas por ser o primeiro contato com a morte. O dia em que deu o primeiro beijo, assustador por sinal. A forma como aqueles aparelhos de mastigação se encaixavam para não mastigar. Os filmes com pipoca, refrigerante ou chá gelado. As muitas xícaras de café que bebera, e os maços de cigarro que fumara. O dia em que teve mais medo de ficar pobre e não ter o que comer do que e ser raptada por alienígenas.
Resolveu parar numa praça, curtir o Sol, as crianças brincando na gangorra. Pediu pipoca para o “tiozinho” alegre: -“A pequena é um e a grande é dois real, qual vai querê moça?”. Pegou a pequena, nunca foi de exageros.
Na verdade já havia exagerado algumas vezes, todas no álcool. Nada perto de morrer, nem nada. Só vômitos e cenas desconexas guardadas na lembrança. Nada demais. Comeu as pipocas, algumas para os cães que sentiram o cheiro de manteiga ao longe. Bom, era hora de ir.
Se levantou e continuou caminhando pela rua. Tantos carros, tantas pessoas, será que todas elas estavam pensando como ela, em tantas coisas? Viu uma loja de doces e revolveu parar pra ver o que tinha de bom. Muito brigadeiro, jujubas e outros doces de nomes estrangeirados. Pegou dois brigadeiros, e comeu sentada em uma cadeira, olhando pela janela. Pediu um leite com chocolate em pó(bem quente). Tomou como quando era criança, único e especial. Mas estava atrasada. Precisou pagar a conta rapidamente, umas moedas no caixa e saiu pelas ruas novamente.
Estava mais frio, colocou sua blusa que estava pendurada na cintura, como quando ia pra escola. Caminhava em frente, logo chegaria. Parou apenas na frente de uma loja de brinquedos. Se encantou com as novas bonecas que chegara. Ficou olhando-as na vitrine, mas não podia entrar, estava atrasada. Apenas olhou por um tempo. Gostou bastante do que viu e do que lembrava vendo. Lembrou tanto da infância, como se fosse hoje, ou ontem, tanto faz. Os olhos brilhavam, a mente pairava em boas sensações, quando ouviu ao longe:
-Loraine, cadê você?
E novamente:
-Lorainte, não te mandei guardar os brinquedos antes de dormir ontem?
Cabisbaixa admitiu a falha, pediu desculpas a sua mãe. Começou a arrumar o quarto e decidiu tomar café e ver desenho. Brincar de adulta era muito chato, a única finalidade era chegar ao trabalho. Preferiu bolar planos de brincar de amarelinha mais tarde.
Tomou leite, café, biscoitos da vovó. Algumas migalhas para o Buck. E ligou a TV. Pensava ela que por sua sorte não deu tempo de chegar no trabalho enquanto brincava, o que iria fazer lá?
Um conto escrito no meio de umas aulas! Nada demais, apenas para abstrair!
Abraço! Paz e Luz!
Tiko Previato
